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sobre o MÉTODO BPI 

“O Bailarino-Pesquisador-Intérprete (BPI) é um método artístico de pesquisa e criação em dança, embasado em eixos específicos e desenvolvido a partir de ferramentas próprias, que favorece a potência latente na dança de cada intérprete em conexão com segmentos sociais singulares. Cada intérprete, através do BPI, alcança uma estruturação corporal própria, construída por meio do processamento de memórias, imagens, emoções e sensações, provenientes do seu encontro com as pessoas com quem ele conviveu em pesquisa de campo. Na busca por um corpo vigoroso e mobilizado internamente, muitos artistas utilizam o método BPI ou aspectos do mesmo para a criação nas artes da cena.” (extraído de RODRIGUES et alia... 2016)

O método Bailarino-Pesquisador-Intérprete (BPI) foi criado por Graziela Rodrigues após anos de formação e de experiências nacionais e internacionais em Artes Cênicas. A elaboração do Método começou na década de oitenta quando Rodrigues, em resposta aos seus questionamentos pessoais como intérprete, buscava estabelecer meios próprios para o desenvolvimento de suas criações artísticas. De acordo com relatos (aulas, palestras, cursos e reuniões do Grupo de Pesquisa) e publicações (vide lista de publicações do método BPI) de Rodrigues, não houve a intenção premeditada de formular uma metodologia particular. No entanto, ao fim de alguns anos de imersão e investigação, a frequência e a pertinência de determinadas ferramentas utilizadas em seus processos criativos apontavam um caminho que poderia ser percorrido não só por ela, mas também por outros intérpretes. O ano de 1980 marca o momento em que esta metodologia começa a ser estruturada e, em 1987, se dá a sistematização do método BPI, momento em que Rodrigues começa a dirigir outros intérpretes.

O método BPI possui uma organização sistêmica com três eixos dinâmicos que são assim denominados: Inventário no Corpo, Co-Habitar com a Fonte e Estruturação da Personagem.

No eixo Inventário no Corpo, o intérprete mergulha em sua história pessoal, fazendo uma espécie de coleta de memórias vividas e/ou inventadas, liberando movimentos, sensações, sentimentos e paisagens incrustadas em seu corpo. “No primeiro eixo, a memória do corpo é ativada através de diversas percepções, tais como visuais, auditivas, táteis e proprioceptivas”. (RODRIGUES; TAVARES, 2010, p.146-147) Desse modo, neste primeiro eixo, o intérprete ‘escava’ seu próprio corpo e elabora cada conteúdo interno liberado, dando-lhe novos significados.

No segundo eixo, Co-habitar com a Fonte, o intérprete realiza uma pesquisa de campo em segmentos sociais e/ou manifestações populares tradicionais que possuem um sentido de resistência cultural. A pesquisa de campo é uma das ferramentas do método BPI e possui características muito específicas em sua abordagem, uma vez que a escolha do local onde será realizada emana do corpo do intérprete durante a sua experiência com o eixo anterior. “Ao estabelecer uma sintonia no contato com ‘o outro’, o bailarino poderá sintonizar-se consigo mesmo, de forma a assumir com consciência a singularidade de seus movimentos”. (RODRIGUES; TAVARES, 2010, Ibidem)

No eixo Estruturação da Personagem há a integração da experiência com os eixos anteriores, que culmina com o surgimento de uma organização corporal que será chamada de personagem. A personagem traz um nome que é ao mesmo tempo sua força e sua síntese e é a partir do seu surgimento que o espetáculo será elaborado. “No terceiro eixo ocorre a integração das sensações, emoções e imagens vividas no desenvolvimento do método, com a consequente criação de uma personagem, cujo nome emerge como sua essência” (RODRIGUES; TAVARES, 2010, Ibidem).

Os três eixos do BPI possuem características bem singulares, exigindo dedicação e predisposição do intérprete para vivenciá-los, tanto em suas especificidades, quanto em sua integração. A vivência integral do processo BPI indica condição primordial e viabilizadora da criação artística neste Método. Todavia, esta organização triádica do método BPI é uma divisão meramente didática para que o método possa ser transmitido e aplicado, estando os três eixos intensamente interligados e amalgamados dentro do processo criativo. “O processo do BPI é visto sob uma perspectiva sistêmica, pois não há como separar esses eixos, assim como não se separa o artista do seu desenvolvimento como pessoa” (RODRIGUES, 2003, p. 5). Para maiores esclarecimentos sobre os eixos do BPI recomendamos as seguintes publicações: RODRIGUES 1997, 2003 e RODRIGUES&TAVARES 2010.

Além dos três eixos, o BPI possui cinco ferramentas fundamentais para o desenvolvimento de seu processo formativo e criativo: Técnica de Dança, Técnica dos Sentidos, Laboratórios Dirigidos, Pesquisa de Campo e Registros. De acordo com Rodrigues (2010b) é possível definir estas cinco ferramentas da seguinte maneira:

1.         Técnica de Dança – decodificação de diversas técnicas corporais e matrizes de movimento encontradas e analisadas por Rodrigues a partir de pesquisas de campo realizadas desde o final da década de 1970. Esta vasta pesquisa ocorreu em diversos segmentos sociais, bem como em ritos, festejos afrodescendentes e outras festividades brasileiras detentoras do sentido de resistência cultural, incluindo algumas etnias indígenas. A partir da análise e decodificação destas manifestações populares, foi possível elaborar a Estrutura Física e Anatomia Simbólica do método BPI. Trata-se de um conjunto de práticas utilizadas para a preparação, a manutenção e o desenvolvimento corporal do intérprete durante o processo de formação e de criação cênica, integrando aspectos fisiológicos, sociais, psicológicos e emocionais do sujeito.

2.         Técnica dos Sentidos – trata-se de um circuito no qual se entrelaçam movimentos, sensações, emoções e imagens que viabilizam a liberação do fluxo de elaboração dos conteúdos internos (inconscientes) dos intérpretes em processo criativo. Esta técnica se integra à Técnica de Dança e juntas às demais ferramentas são utilizadas nos três eixos deste Método.

3.         Laboratórios Dirigidos – dinâmica processual demandada pelo diretor de acordo com o desenvolvimento do processo de cada intérprete. Diz respeito a um espaço laboral no qual a imagem corporal do intérprete, suas sensações, seus movimentos, suas emoções e imagens internas serão investigados de modo verticalizado. O espaço de laboratório é pessoal e sua materialização se dá, inicialmente, a partir de um risco/círculo feito com giz no chão no entorno do corpo. Dentro deste espaço chamado de Dojo, o intérprete libera, projeta e elabora os seus impulsos e conteúdos internos.

 

4.         Pesquisa de campo – esta ferramenta também está presente nos três eixos do método BPI, tendo, em cada um deles, algumas particularidades. No Inventário no Corpo, ela se dá em âmbito estritamente pessoal através de uma investigação da história familiar do intérprete. Já no eixo Co-habitar com a Fonte, a pesquisa de campo é feita nos segmentos sociais e/ou manifestações populares acima descritos, tornando-se a espinha dorsal do processo BPI. Além de possibilitar que o intérprete aprofunde sua relação consigo mesmo através de um contato afetivo e empático com o outro, também viabiliza a ampliação e dinamização tanto da potência expressiva como das suas sensações, imagens, movimentos e sentimentos. Esse ‘outro’ está inserido num contexto periférico e à margem dos ideais e padrões vigentes, num sentido que vai do geográfico ao sociopolítico. No eixo Estruturação da Personagem, a pesquisa de campo ocorre a partir das necessidades que são impostas pelo processo de elaboração e estruturação da personagem. Neste sentido, cada processo individual requer uma quantidade e um grau de intensidades diferentes de pesquisa de campo neste eixo final.

 

5.         Registros – são ações do intérprete e do diretor que vão desde a elaboração de diários (tomar notas) à memorização e gravação dos dados no decorrer do processo. Essas formas de registro são utilizadas tanto na pesquisa de campo quanto nos laboratórios e, primordialmente, auxiliam na estruturação do roteiro/dramaturgia da criação cênica final e na análise do processo criativo.

 

Ao fim de sua tese, Rodrigues (2003 e 1997) pontua que uma das peculiaridades do método BPI está em legitimar o corpo do intérprete como fonte principal para a criação artística. Este seria um grande diferencial do BPI como processo de formação e de criação para a área de Dança, uma vez que, neste método, parte-se de uma escuta real do corpo do intérprete em prol de uma conexão maior com aspectos profundos da sua identidade (aspectos estes em grande parte ignorados até então). Esse contato possibilita a elaboração de uma dança na qual o intérprete cria partindo de suas sensações, emoções, imagens e movimentos próprios, sem se prender a determinados padrões ou julgamentos estéticos, trabalhando o inconsciente para que cada vez mais se torne consciente (RODRIGUES, 1997, 2003, 2010a, 2010b, 2010c e 2010d; RODRIGUES&TAVARES 2006; CAMPOS&RODRIGUES, 2010). Nada ultrapassa ou se sobrepõe ao desenvolvimento desse processo que é particular para cada bailarino, sendo, nesse sentido, uma experiência única e intransferível.

 

O início desse processo pode ser apontado ante a vontade do intérprete de vivenciar uma elaboração dos seus significados internos, indicando a abertura para o trabalho de autoconhecimento proposto pelo BPI. Nessa autoinvestigação há a liberação de um fluxo criativo e de uma dinâmica singular proporcionando que o intérprete além de criar cenicamente, também desenvolva a sua própria imagem corporal. Rodrigues (2003) indica que grande maioria dos trabalhos na área de dança está atrelada a uma idealização do corpo, ao passo que quando se dança a partir de aspectos da identidade do sujeito – elaborando suas perdas e singularidades – trilha-se um caminho que investe na realidade corporal do intérprete e não na sua ‘adestração’ segundo certos padrões estéticos dominantes.  Nas palavras da autora, “a dança proposta está vinculada a um corpo real e, portanto, não está compromissada com a dança representante da cultura oficial sedimentada num corpo ideal” (RODRIGUES, 2003, p. 158).] (extraído de CAMPOS&RODRIGUES, no prelo)

 

Para esse Método “a pessoa do artista também é vista de forma integrada, não havendo uma separação entre o desenvolvimento pessoal e o artístico no processo de criação dentro do método. Tavares (2003, p.50) reforça esse aspecto, salientando que o BPI é uma abordagem corporal que visa ‘[...] desenvolver o ser humano de forma integral, ampliando suas relações com o mundo’”. (extraído de RODRIGUES et alia... 2016)

 

Quando se lida com o movimento em profundidade, muitas vezes o intérprete se depara com suas próprias referências emocionais que, através do contato com as sensações corporais, vêm à tona, muitas delas desconhecidas dele mesmo até esse momento. Devido a essa conjuntura, no método BPI trabalha-se o desenvolvimento pessoal do intérprete junto com o artístico. Na prática cotidiana com o método tem-se observado a potência desse reconhecimento de si mesmo, por exemplo, quando a pessoa constata a atuação dos seus próprios mecanismos de defesa e isso reverte positivamente na fisiologia do movimento. Assim, é dada ao intérprete a possibilidade de ter acesso a conhecimentos da psicologia, como mais uma ferramenta para proporcionar o seu desenvolvimento artístico e pessoal.

 

A questão do desenvolvimento humano é central também na qualidade das relações interpessoais que ocorrem ao longo de toda a criação. Ao ter uma maior consciência de si, a pessoa poderá perceber os seus processos de incorporação, identificação e projeção etc., o que a permitirá enxergar melhor o outro e cuidar das relações como mesmo.] (extraído de RODRIGUES et alia... 2016)

Referências:

CAMPOS, F.; RODRIGUES, G. O método BPI e sua estética: trilhas e veredas de um estudo em artes da cena. In: Revista Pitágoras 500. 2017 (No prelo)

CAMPOS, F.; RODRIGUES, G. Um estudo sobre as relações vivenciadas pelo intérprete no processo de criação cênica e de formação do bailarino-pesquisador-intérprete. Anais do I Simpósio Internacional e I Congresso Brasileiro de Imagem Corporal, UNICAMP, Campinas, 2010. Disponível em: <http://www.fef.unicamp.br/fef/sites/uploads/congressos/imagemcorporal2010/trabalhos/portugues/area3/IC3-27.pdf >. Acesso em: 28 jan. 2017.

RODRIGUES, G. E. F. As Ferramentas do BPI (Bailarino-Pesquisador-Intérprete). Anais do I Simpósio Internacional e I Congresso Brasileiro de Imagem Corporal (ISBN: 9788599688120). UNICAMP. Campinas, SP. 2010a. Disponível em: < http://www.fef.unicamp.br/fef/sites/uploads/congressos/imagemcorporal2010/trabalhos/portugues/area3/IC3-28.pdf > Acesso em: 28 jan. 2017.

RODRIGUES, G. E. F. Bailarino-Pesquisador-Intérprete e a Dança do Brasil. In: NAVAS, C.; ISAACSON, M.; FERNANDES, S. (org.) Ensaios na Cena. Salvador: ABRACE 2010b.

RODRIGUES, G. E. F. O Que é o BPI? O Caminho do Intérprete. Anais do I Simpósio Internacional e I Congresso Brasileiro de Imagem Corporal (ISBN: 9788599688120). UNICAMP. Campinas, SP. 2010c.

RODRIGUES, G.E.F. Dança dos Brasis III - Junto aos Xavante. Anais do VI Congresso ABRACE. UNESP: São Paulo, 2010d.  Disponível em: < http://www.portalabrace.org/vicongresso/pesquisadanca/Graziela%20Rodrigues%20-%20Dan%e7a%20dos%20Brasis%20III%20-%20Junto%20aos%20Xavante.pdf >. Acesso em: 28 jan. 2017.

RODRIGUES, G. E. F. Bailarino-pesquisador-intérprete: processo de formação. Rio de Janeiro: Funarte, 1997.

RODRIGUES, G. E. F. O Método BPI (Bailarino-Pesquisador-Intérprete) e o desenvolvimento da imagem corporal: reflexões que consideram o discurso de bailarinas que vivenciaram um processo criativo baseado neste método. 2003. 171p. Tese (Doutorado em Artes) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP. Disponível em: < http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000303199 > Acesso em: 28 jan. 2017.

RODRIGUES, G. E. F.; TAVARES, M.C.G.C.F. Mudanças na imagem corporal de bailarinas que vivenciaram o método BPI. Repertório: teatro & dança / Universidade Federal da Bahia. Escola de Teatro. Escola de Dança. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas - Ano 13, n. 14 (2010.1). Salvador: UFBA/PPGAC, 2010.

RODRIGUES, G.E.F; TAVARES, M.C.G.C.F. Imagem Corporal, Narcisismo e a Dança. In: Tavares, M.C.G.C.F. (org.). O dinamismo da Imagem Corporal. ISBN 978-85-7655-119-5. São Paulo: Phorte, 2007.

RODRIGUES, G.E.F.; TAVARES, M.C.G.C.F. O método BPI (Bailarino-Pesquisador-Intérprete) e o desenvolvimento da imagem corporal. Cadernos de Pós-Graduação, Instituto de Artes/UNICAMP, Ano 8, V. 1, 2006, p. 121-128.

RODRIGUES, G.E.F.; TURTELLI, L.S.; TEIXEIRA, P.C.; CAMPOS, F.; COSTA, E.M.; CÁLIPO, N.; FLORIANO, M.; ALLEONI, N.V.; JORGE, M.D. Corpos em Expansão: a arte do encontro no método Bailarino-Pesquisador-Intérprete (BPI). In: Revista Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 6, n. 3, p. 551-577, set./dez. 2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/2237-266065010.

TAVARES, M. C. G. C. F. Imagem Corporal: Conceito e Desenvolvimento. Barueri, SP: Manole. 2003.